13 de outubro de 2009

Reflexões

Depois de 95 dias de experiência andina estamos de volta ao aconchego da família e amigos.
Essa viagem não foi apenas um passeio pelas belezas naturais de três países latinos, mas sim uma grande experiência e aprendizado que mexeu com nossa visão em relação ao mundo e a nós mesmos.

Inicialmente chegamos a nos perguntar se a idéia de percorrer a parte mais pobre da América do Sul de ônibus com apenas uma mochila nas costas seria loucura, mas hoje vejo que basta apenas um pouco de planejamento e disposição. Nós latinos criamos muitas barreiras imaginárias para realizar empreitadas desse gênero. Orçamento, tempo e segurança são as principais âncoras que criamos em nossas cabeças. Mas o fato é que elas não são realidade. O custo médio diário da nossa viagem foi US$96 para 2 pessoas, e poderia ser ainda menor. Alguns viajantes inclusive fazem trabalhos temporários ao longo do trajeto para pagar as despesas da viagem. E como encontrar tempo? Muitos viajam por períodos de até 1 ano, antes ou depois da universidade (principalmente os nórdicos) ou depois do serviço militar (israelenses). Outros saem do emprego (a crise financeira pode ser uma excelente oportunidade) ou obtém a famosa licença não remunerada. E com relação a segurança, nada que um bom seguro viagem, atenção constante e outros macetes que aprendemos ao longo do caminho não resolvam essa questão. Mais alguma barreira?

Essa viagem nos mostrou que há muita coisa bonita aqui do lado. Há muita cultura e história ao longo dos Andes, há também muita culinária interessante no Pacífico, há também muitos recantos tranquilos para se relaxar no litoral ou na floresta. Esporte e aventura não preciso nem citar. Enfim, o mundo também está aqui, inclusive no Brasil. Enfim, acho que os destinos turísticos baseados no eixo América do Norte e Europa deveriam ser reavaliados por nós brasileiros em prol de outros países que oferecem tanta experiência bacana e a um custo certamente mais baixo.
Portanto, o mundo é muito maior daquele que vemos na TV e ele está ao nosso alcance.

Hoje nos sentimos muito felizes por realizar um sonho. Felizes porque conseguimos tornar realidade algo que tinha tudo para ficar "engavetado" em nossos projetos. Felizes também por conhecer um pouco mais dos nossos vizinhos e aumentar nossa identidade sul-americana.

Esperamos que esse blog tenha cumprido o propósito inicial, que foi colocar nossos parentes e amigos a par da nossa viagem, e também colocar informações úteis sobre os lugares por onde passamos caso alguém queira um dia conhecê-los.

Obrigado a todos que nos acompanharam, deixaram comentários e nos enviaram emails durante esse período. Sem dúvida nenhuma esse blog nos deixou mais próximos dos nossos parentes e amigos.

Agora, que venha a grande mudança que nos aguarda.
Que venha o Canadá!




Trilha Inca

Três dias de viagem rumo ao sul e finalmente chegamos a Cusco, antiga capital do império Inca e também última parte de nossa jornada de três meses pelos Andes.

Saímos do Brasil com tudo certo para fazer a trilha inca de 4 dias. Para garantir sua vaga nessa trilha é preciso reservar com pelo menos 3 ou 4 meses de antecendência. A trilha é muito procurada e existe um limite de pessoas por dia que pode ingressar no parque por este caminho.

Antes de iniciar a trilha passamos 2 dias em Cusco. Ao redor de Cusco existe um infinidade de sítios arqueológicos, inclusive dentro da cidade. Visitamos a pedra de 12 pontas que fica em Cusco e também um complexo com 4 sítios arquelógicos que fica bem próximo a cidade.

É realmente impressionante as construções em pedra que os Incas faziam. Pedras enormes finamente talhadas e perfeitamente encaixadas formando grandes muros e complexas construções. Existe muitas histórias sobre a civilização Inca. Infelizmente os incas não tinham sistema de escrita e por falta de evidências muito se perdeu com o tempo. O que se sabe realmente é que eles detinham grande conhecimento de arquitetura e agricultura. Sabiam manipular muito bem as pedras e eram guerreiros, pois conseguiram expandir seu império, dominando outros povos, desde Argentina e Chile até a Colômbia.

Tinham também conhecimento de astronomia, pois muitas de suas construções foram progetadas para receber luz do sol exatamente no solstício solar e muitas vezes são alinhadas com as constelações.

Tinham um organizado esquema de distrubuição de seus produtos entre a serra e a costa. As cidades se comunicavam entre si através de mensageiros que eram jovens que conseguiam correr grandes distancias em pouco tempo para levar as mensagens de um lugar para outro. Os Incas também não tinham o conhecimento da roda e tampouco existia cavalos na região. Os produtos eram transportados em grandes comboios de lhamas ou pelas próprias pessoas. Os guias dizem que os Incas não faziam sacrifícios humanos, mas as evidências dizem o contrario. E também que na civilização Inca não existiam escravos, particularmente tenho minhas dúvidas. Os guias contam algumas histórias que, pela falta de evidências sobre a cicilição Inca, fico me perguntando como eles podem ter este tipo de informação. Uma das únicas fontes sobre o que foi a civilização Inca é um livro (Comentários Reales de los Incas) escrito por um mestiço chamado Garcilaso de la Vega no séc. XXVII. Ele colhe muitos relatos de descendentes dos Incas da época e transforma em um romance. Existem fortes indícios de que ele ocultou e acrescentou histórias neste livro. Portanto, há de se ter cuidado com o que se acredita das histórias que os guias contam.


Inciamos nossa trilha de 4 dias pela manhã. Nosso grupo continha 15 pessoas, 2 guias e 14 portiadores. Os portiadores levam toda a comida, utensílios de cozinha (inclusive um botijão de gás) e as barracas. Se achar necessário você pode contratar um portiador para levar sua mochila com as roupas e saco de dormir, a maioria contrata. Descobrimos então porque é difícil conseguir vaga nesta trilha, pode-se entrar 500 pessoas, incluso os guias e portiadores. Nossos guias nos disseram que dessas 500 pessoas que entram diariamente na trilha, 180 a 200 são turistas e os outros são porteadores. Achei a trilha tranquila, caminha-se bastante em nível, embora o segundo dia seja praticamente inteiro de subida. Visita-se 4 sítios arqueólogicos bem interessantes no terceiro dia. Particularmente achei a trilha muito bonita. Caminha-se sempre por um caminho largo e com pedras, parte colocadas pelos incas e parte reconstruída. A natureza é uma rara combinação de floresta úmida com montanhas, onde se pode ver muitas espécies de pássaros e flores. Inclusive neste parque ainda vive o quase extinto urso andino.

Mas a trilha tem um grande problema: a quantidade de pessoas que caminham por ela faz perder um pouco o encanto do lugar. Além disso, deve-se ficar atento com os porteadores que passam correndo do seu lado o tempo todo. Enfim, não é o tipo de trilha que se faz procurando silêncio e tranquilidade.

No último dia levantamos bem cedo e caminhamos somente 2 horas para chegar ao santuário sagrado Machu Picchu. É impossível não ficar impressionado. Machu Picchu realmente é incrível. Como eles conseguiram construir aquela cidade de pedra no alto de uma montanha com enconstas tão escarpadas? Não preciso dizer que é extremamente turístico. Por dia calcula-se que 1000 pessoas visitem Machu Picchu. Fizemos um tour com nossos guias e mesmo assim não se consegue visitar toda cidade. Os guias tentam então contar as histórias dos Incas sempre com um certo ar de fantasia, mas não deixa de ser incrível observar as construções. Ficamos horas sentados e olhando para a cidade tentanto imaginar como aquilo deviria funcionar na época dos Incas. E assim terminou a última parte turística da viagem. A partir daí sería meramente comprir tabela até pegar o voo para o tão querido Brasil. Almoçamos esse dia em Aguas Calientes e mais tarde pegamos o trem para Cusco.

No outro dia pegamos o avião para Lima. Neste dia dormimos na casa do Odair, amigo do Rurik que está lá a trabalho por uns meses. Lógico que fomos comemorar juntos o fim da viagem. Ao 12:45 do outro dia estávamos decolando rumo ao Brasil. Agora cheios de expectativas e ideias novas na cabeça.

A única certeza: Tudo valeu a pena!!!


Postado por: Laura